ESCOLA OFICIAL DE IDIOMAS DA CORUÑA

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Relato escrito por Fernanda Roget Vázquez
Quando o Júlio entrou na sala de aulas o primeiro dia comprovou que não conhecia ninguém. Mas já contava com isso. Procurou um lugar numa das filas do meio e sentou-se ao pé doutro aluno, o Miguel, outro gajo porreiro como ele que logo ficou seu amigo. A verdade é que os outros colegas da turma eram também gente normal, e a maioria dos professores também. Se calhar, o mais “original” era aquele professor de história que quis baptizar seus filhos gémeos com os nomes de Rómulo e Remo. Ou um dos professores de Geografia, que cada dia tomava o pequeno-almoço num bar ao pé da universidade. Bom, isso não teria nada de especial se não fosse porque o seu pequeno-almoço era um grande copo de uísque.

Tudo correu bem mais ou menos até o mês de Dezembro. Então, pouco antes das férias do Natal, aconteceu uma coisa que deixou o Júlio un bocadinho baralhado. Foi durante a aula de Pré-História. O professor estava a falar, completamente entusiasmado, dum tema fundamental na evolução humana: a transição evolutiva posterior ao macaco que concluiu com o aparecimento do homem. A descrição do Homo habilis acompanhava-se de vários diapositivos que apresentavam o crânio e a reconstrução facial e corporal do nosso antepassado. Toda a gente concordou que não era muito lindo: testa inclinada, olhos afundados, sobrancelhas salientes, mandíbula grande e forte… O seu corpo também não era para apresentar no certame de Mister Universo: baixa estatura, braços muito compridos e pernas curtas, factores que lhe facilitariam um modo de andar muito parecido ao dos macacos.

Bom, pois este retrato tão ilustrativo e completo do primeiro homem viu-se acompanhado da irrupção na sala de aulas duma personagem que logo chamou a atenção do Júlio. Era un gajo baixinho, de idade indefinida, vestido com un paletó preto e sujo, uns sapatos velhos, umas calças muito feias e um chapéu tipo Humpfrey Bogart no filme “Casablanca”. O Júlio olhou para ele arregalando os seus enormes olhos azuis, não pela roupa do recém-chegado, mas pelas suas características físicas: parecia o antepassado do Homo habilis. Naquela altura, o professor já tinha acabado de falar do primeiro homem, e falava agora do seu predecessor, que os especialistas tinham decidido chamar  “o elo perdido”  da corrente, a peça que devia conectar as duas espécies: o macaco e o homem. Mas não era coisa fácil dar com ele, segundo o professor, e os investigadores estavam a realizar uma intensa procura no continente africano. O Júlio olhou para o professor com incredulidade, enquanto o gajo esquisito procurava um lugar na última fila. Como era possível que alguém estivesse a investir tanto tempo, dinheiro e esforço em procurar o elo perdido na África quando estava ali, tão perto? E ainda pior: como é que o professor não se dava conta, se o tinha na frente?

Quando o Júlio contou em casa que um dos colegas da turma era um macaco -ou quase- seu irmão riu e disse que, se alguma vez tinha problemas com ele, bastaria oferecer-lhe um cacho de bananas ou um saco de amendoins para fazer as pazes.

Antes disse que a roupa do elo perdido (vamos chamá-lo assim) não tinha chamado a atenção do Júlio, mas tal afirmação não é exacta: o que acontece é que a sua roupa não parecia relevante, tendo em conta a sua anatomia. Mas era importante, especialmente para um rapaz como o Júlio, sempre tão bem vestido: camisa Burberry, calças de ganga novinhas em folha e sapatos italianos. O envoltório perfeito para um físico abençoado pela natureza: cabelo loiro aos caracóis, sorriso de dentes brancos e muito bem alinhados, 1’85 de estatura e um corpo esbelto e harmonioso. Mas se tens a desgraça de ser tão feio como o elo perdido, pensava o Júlio, pelo menos podes fazer algo por melhorar o teu aspecto. Porque é incrível que, para além de feio, alguém possa ser tão desleixado.

Em troca, outras personagens da “fauna” universitária preocupavam-se com ter sempre um aspecto impecável: a professora de Arte, por exemplo. Gostava de levar um vestido, um blazer e uns sapatos de salto alto com a mala a condizer; o cabelo curto bem penteado, uma maquilhagem discreta e uns óculos de marca. Também as suas maneiras e o seu modo de falar demostravam que era uma senhora distinta. E foi ela a primeira que deu conta de que um dos seus alunos era diferente do resto.

Um dia qualquer, uns meses depois da primeira aparição do elo perdido, a professora estava a dar aulas quando chegou ele, meia hora tarde, como sempre. Sentou-se na última fila, como sempre. E dez minutos depois, inesperadamente, todos os alunos da turma escutaram um berro, e souberam que inclusivamente a pessoa mais educada e paciente do mundo pode perder a compostura. De repente, a professora começou a dizer aos gritos que já estava farta de presenciar a mesma cena todos os dias, e que era incrível que um estudante universitário não soubesse -ainda- que tem de cuidar as suas maneiras, porque não pode estar todo o tempo a meter o dedo no nariz!

Quando o Júlio contou em casa o que tinha acontecido, seu irmão achou graça, e logo adivinhou que a causa do desespero da professora tinha sido o elo perdido. Mas deu com a explicação perfeita: na época de que ele procedia não existiam os lenços de papel.
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Data de creación:05/19/09
Derradeiro troco:05/19/09
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